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    22/06/2011

    O que leva jornalistas a trocarem de editoria?

    Na ânsia de entrar em um mercado de trabalho tão restrito como o jornalismo, o profissional até consegue, às vezes, ingressar em algum veículo de comunicação, mas com um problema: a vaga ocupada é em uma editoria que ele nunca sonhou em trabalhar.

    Quando um jornalista cobre uma editoria que não lhe é de interesse algum, existem três possibilidades para o desfecho da carreira dele: ficar a vida inteira trabalhando com assuntos que não agradam; cansar da correria, e por não conseguir espaço na editoria que gosta, abandonar o jornalismo; obter êxito e migrar para a tão sonhada editoria, venerada desde o início. Entre o terceiro caso, está o criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa, que sempre almejou a arte dos jornais, revistas e gibis, mas passou cinco anos como repórter policial da Folha de S. Paulo.

    Deixaram o esporte
    Alguns casos mais conhecidos pelo público, de profissionais da mídia que mudaram de editoria durante a carreira, são o de José Luiz Datena, Fernando Rocha, Cesar Tralli, Reinaldo Gottino e Fausto Silva. Em comum, todos os descritos deixaram de cobrir esportes e foram para outro ramo do jornalismo. No caso de Faustão, a mudança o levou para a função de apresentador de programa de auditório.

    Mesmo com essa debandada desses e outros jornalistas do esporte, a versão de que os jornalistas que deixam essa editoria por outra não são bem vistos nas redações, não procede, afirma Reinaldo Gottino. “Não sei se sofre preconceito, acho uma besteira isso. O preconceito é uma imbecilidade por parte de quem comete”, diz o apresentador da TV Record, que deixou a cobertura de times de futebol de lado para atuar no formato noticiário policial.
    Gottino, entretanto, conta que não entrou no jornalismo esportivo porque na época esta era a única opção para trabalhar na profissão. Mostrando bom humor, o ex-repórter do Gazeta Esportiva não descarta regressar a cobertura desportiva: “Não posso dizer que minha carreira no esporte está encerrada, porque adoro esporte e sou um jogador de grupo. Se o técnico pedir para jogar na defesa, eu jogo na defesa. Se tiver que jogar no ataque, eu jogo no ataque”, brinca.

    Percurso inverso: foram para o esporte
    Enquanto muitos jornalistas começam a carreira como setorista de algum clube de futebol, e com o passar do tempo decidem tomar novos rumos dentro do jornalismo, outros profissionais fazem o caminho contrário: deixam a cobertura de cidades, policial, cultura, bastidores e outros temas para investir no esporte. Nesse ‘time’ podem ser identificados João Palomino e Rodrigo Rodrigues, da ESPN, e Thalita Oliveira, da Record News.

    O caso de Thalita foi um ‘bate e volta’. Ela, que tem passagens por afiliadas da Globo no interior de São Paulo e Minas, começou a carreira na bancada de telejornais, mas ao chegar na TV Record foi para o esporte. A experiência, que durou até ela ser encaminhada para o Jornal da Record News, foi bem aceita. “Adorei, porque o esporte é uma coisa que encanta, não só os torcedores fanáticos, mas com quem trabalhar com ele”, conta.

    Da TV Cultura para a ESPN, Rodrigo Rodrigues pensa em fazer diferente de Thalita, não deseja, por enquanto, abandonar a cobertura desportiva. Com experiência nos bastidores da mídia e da cultura, o ex-repórter da Band e SBT afirma que a paixão por pesquisar notícias do esporte “já entrou na corrente sanguínea”.

    A tragédia foi um basta
    Um dos casos mais emblemáticos de jornalista que muda de editoria no meio da carreira foi o de João Palomino. Repórter de política, economia e cidades, o jornalista estava bem no dia a dia do hard news, o trabalho na ESPN era até então uma jornada complementar. Porém, ele não nega que ter acompanhado de perto uma das maiores tragédias do Brasil foi preponderante para chegar a decisão de trabalhar apenas com esportes, o que acontece desde 1997.

    A tragédia que marcou a mudança de editoria para Palomino foi o acidente com o avião modelo Fokker 100 da TAM, que caiu logo após decolar do aeroporto de Congonhas -SP, em 31 de outubro de 1996, matando 99 pessoas. “Eu já tinha coberto chacinas, assaltos, mas nunca uma desgraça humana tão grande. E depois disso fiquei assustado, cansado, com tudo aquilo”, relembra o jornalista que no ano seguinte do maior acidente aéreo da época no País, passou a se dedicar integralmente à ESPN.

    E quem não muda de editoria?
    Por vontade própria, paixão desde o começo da carreira, pura e simples tentativa de mudar de ares e até mesmo motivados por traumas adquiridos na realização de algum trabalho, os jornalistas até aqui citados conseguiram mudar a editoria que cobriam no jornalismo. Mas e quem não alcança esse objetivo e segue fadado a cobrir o assunto pelo qual não tem identificação? No âmbito psicológico, isso pode resultar em problemas.

    “Existem vários fatores, possivelmente a pessoa pode ter doenças relacionadas a um trabalho que não lhe agrada. Mas também existe outra possibilidade: a pessoa se identificar com o passar do tempo com aquele tipo de trabalho que ela não gostava no início. As condições de trabalho também podem fazer o trabalho se tornar agradável”, explica a psicóloga Cândida Maria Cunha Melo, professora doutora e coordenadora de extensão do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IP-UFRJ).
    Evitando problemas
    Para evitar problemas psicológicos aos jornalistas que não cobrem a área desejada, o fator faculdade é importante. De acordo com Nilthon Fernandes, professor da disciplina de Jornalismo Especializado da Universidade Nove de Julho (Uninove), os alunos de comunicação social e os profissionais já formados devem tentar espaço na área que gostam, mas tendo em mente que o jornalismo vai além de uma única editoria, e trabalhar em algum outro núcleo ou nas chamadas subeditorias, pode ser proveitoso.

    “Penso ser interessante a pessoa ter um objetivo, desde que seja legítimo. Não adianta o aluno vir com a ideia de pautar ou escrever sobre esportes apenas porque que é torcedor. O mesmo podemos dizer da moda, artes e música. Temos de gostar e saber realmente do que se trata. No jornalismo científico podemos acrescentar o ambiental como sub área, da mesma maneira podemos classificar dentro da editoria esportes as outras modalidades além de futebol como basquete e vôlei”, diz Fernandes, que, além da atividade acadêmica, é diretor de arte da revista Com Ciência Ambiental e publisher da editora Lua Nova.

    Enfim…
    “O ideal é saber e gostar de uma determinada editoria, caso contrário devemos atuar em parte delas para escolher qual a que mais o jornalista tem afinidade”, comenta Fernandes. Porém, mesmo tendo um pensamento motivacional para os jornalistas correrem atrás da editoria que têm afinidade, o professor afirma que principalmente no início da carreira é “pertinente transitar por várias editorias”.

    Com as dicas de Cândida e Nilthon ficam os caminhos para os jornalistas sentirem prazer em escrever, produzir e apurar, mesmo que não seja na editoria que sempre imaginaram trabalhar. Caso não consiga se sentir feliz em tal temática da comunicação, é melhor refletir sobre a profissão e analisar se vale a pena seguir na carreira.

    Anderson Scardoelli
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