(0) Comentário
22/03/2011
A Paraíba ganhou uma nova anistiada política da Ditadura Militar (1964-1985). O processo da jornalista paraibana e ex-perseguida do regime, Denise Maria de Moraes Santana Fon, foi julgado durante a 48ª sessão da Caravana da Anistia. O julgamento, que aconteceu em São Paulo, também deu a garantia de anistia para outros três brasileiros, representantes do setor educacional: Maria Aparecida Antunes Horta, Elza Ferreira Lobo e Emílio Borsari Assirati.
Denise Fon assistiu ao julgamento e discursou para um público de dezenas de expectadores, além de familiares e colegas políticos. “Para mim, que fui expulsa da minha terra, saí do meu estado foragida, sempre existiu essa expectativa pelo reconhecimento. Agora, enfim, eu ouvi o que esperava, um pedido formal de desculpas, já que não era culpada de nada”, comemora.
A paraibana era professora primária. Contratada pelo Estado, ensinou em colégios dos bairros de Tambaú, na Capital, e na cidade de Santa Rita. Mas sua atuação histórica aconteceu entre as décadas de 50 e 70, junto a ligas camponesas, lutando para que essas associações se tornassem sindicatos e dessem garantias aos mais necessitados. “Na época da ditadura, fizeram sérias acusações contra mim e meus colegas. Algumas não eram infundadas. Eu era comunista, trilhei um caminho de lutas, por opção”, lembra.
Foram anos de lutas, mas meses de perseguição. Denise lembra da noite que voltava de um comício na cidade de Sapé, onde apoiava a candidatura do deputado federal Severino de Oliveira, pelo PSB (já que o partido comunista era ilegal). “Estávamos passando pela cidade de Bayeux, quando nosso carro foi alvejado. Por sorte, ninguém se feriu. Quando chegamos em João Pessoa e entramos em um restaurante, vários homens nos abordaram, nos ameaçaram e nos espancaram. Foram chutes, socos e muito xingamento”, lembra.
Mas uma frase, em especial, ficou na memória da professora: “A próxima a ser abatida será esta comunista”, relembra, emocionada. Depois de dias hospitalizada, ela e os colegas procuraram apoio do governador Pedro Gondim. “Ele era um homem honrado, mas foi sincero ao dizer que não podia me dar segurança. Nós sabíamos que os atentados tinham sido cometidos por militares, mas não podíamos acusar sem provas”, afirma.
Daí, então, ela passou a viver na clandestinidade, se mudou para o estado de São Paulo, onde teve vários nomes, muitas identidades. “Apesar do presidente João Goulart ter sido progressista, o regime ainda era retrógrado. E nossas ideias incomodavam”, diz.
Meio século – Quase 50 anos depois, ontem, durante discurso na sessão da Caravana, ela desabafou: “Eu tinha 22 anos quando, como a ribaçã, tive de deixar minha Paraíba natal em busca da sobrevivência. Não afugentada pela seca, que transforma a lama em pedra e seca o mandacaru mas, marcada para morrer, tentando escapar daquela morte severina, que nos versos de João Cabral do Mello Neto é a morte que se morre de emboscada antes dos 20”.
Hoje, aos 70 anos, a professora vive com o marido, em São Paulo. Ela é presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas daquele estado, diretora da Ação Cristã contra a Tortura da Organização das Nações Unidas e membro do Movimento Tortura Nunca Mais.
Caravana divulga a temática
Ser um anistiado significa ter o reconhecimento público das violações e ganhar o direito a algum tipo de indenização financeira. O julgamento, presidido pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (PUC), um dos espaços que simboliza os movimentos de resistência à opressão durante o regime militar.
A Caravana foi instituída em 2008 pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça com o objetivo de descentralizar os trabalhos que eram feitos no Distrito Federal e permitir maior participação da sociedade, além de difundir o período histórico e a luta pela democracia, principalmente, ao público jovem. Nesses três anos, cerca de mil requerimentos foram julgados.
Rodrigo Luna
Jornal A União
Haceldama Borba


API - Associação Paraibana de Impresa 2009-2011 | Todos os direitos reservados. | Login