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15/03/2010
A música do Jaguaribe Carne (movimento artístico-cultural, grupo de intervenção poético-musical, artistas para a ação estética popular crítica e vanguardista) é uma lendária rebelião formal propondo questionamentos, belezuras, estratégias iconoclastas e uma poética libertária ao movimento artístico nordestino e brasileiro.
O CD Jaguaribe Carne – Vem no Vento, lançamento do selo Chita criado pelo cantor e compositor Chico César para difundir música de qualidade, faz uma síntese da produção dos compositores Pedro Osmar e Paulo Ró que fundaram o movimento e o grupo, músicas que funcionam enquanto manifesto de denúncia dos pontos de colapso do espaço social e histórico em que são produzidas (a Paraíba e o Nordeste do elitismo, do coronelismo eletrônico e da concentração de renda).
É também música que funciona enquanto índice da histórica contribuição musical e artística da Paraíba para o que podemos chamar de expressão cultural brasileira – que tem tanto o maquinismo rítmico imaginoso da obra de Jackson do Pandeiro quanto a estetização da irresignação social representada pela música de Geraldo Vandré; que tem o funk-soul aveludado de Cassiano e o forrosismo cosmopolitano de Sivuca; a guitarrice pós-punk de Washigton Spínola e o lirismo rocker de Herbert Viana, o infodadaísmo de Chico César e tanta gente mais…
Música que é também invenção. E que se define a partir da apropriação das tramas sonorosas do espaço acústico urbano, da interferência da gesticulação musical do colóquio da esquina e das possibilidades de uma fabulação acústica que se dá a partir da experimentação dos tecidos musicais através de estratégias inovadoras do uso de instrumentos e de objetos feito instrumentos. Quando Arrigo Barnabé proclamou aquela insurreição dodecafonizante nos 80 o Jaguaribe Carne já tinha quase uma década fazendo música com viola, rebelião, liquidificadores e cadeiras, cacos de vidro e berro-berimbau.
Neste sentido, a música acondicionada no CD Vem no Vento situa-se entre as tensões formais produzidas por Tom Zé e a investigação lógico-discursiva do espaço imaginativo da música realizada por Hermetho Pascoal. Trata-se este trabalho produzido por Xisto Medeiros e Marcelo Macedo (dois músicos inspirados que empanturraram de sabedoria cada célula deste trabalho histórico) cuja intencionalidade ideológica abriga a libertária pulsão transformadora da ambiência psíquica e estética da arte presente na contribuição de Hélio Oiticica, quanto a organicidade ideológica da contestação guerrilheira intentada por Che Guevara. Há pouca mitologia, muita práxis (ação) e mais poiesis (fabricação) ainda.
O conceito de guerrilha cultural permeia toda a arte do Jaguaribe Carne.
O design do CD (de autoria de Fábio Cavalcanti) Vem no vento é todo alimentado por ilustrações e desenhos de matriz abstrata de Pedro Osmar. São tramas visuais objetivadas por espasmos cromáticos de temperatura elevada que referenciam convulsões entre o geométrico dos regulares sólidos (o círculo, o quadrado) que são assediados por ataque dissoluto. Esses ataques formais Pedro usa para compor ora fábulas plásticas de fogo, flores em negro coaguladas sobre vermelho, sóis de menstruação invadidas por vinheta em branco, recorte púrpura sobre mar azul trepidante, ou ainda uma rede sutil de intuído lirismo provo.
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Walter Galvão


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