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    26/11/2010

    Valeu a pena?

    Se leio, perco tempo; se não leio, perco a vida. Foi essa a lição que aprendi ainda adolescente quando, nas minhas divagações juvenis, procurava conhecer um pouquinho dos grandes pensadores. Tentei uma leitura de “O Capital”, a volumosa obra de seis tomos escrita por Karl Marx (1818 – 1883), mas vi que não tinha fôlego para tal empresa. Gostava de ler Suetônio (A Vida dos 12 Césares), Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Edward McNall Burns (História da Civilização Ocidental), Will (e Ariel) Durant (História da Civilização, onze tomos),Thomas Hobbes, John Locke, Thomas Morus, Bertrand Russel, H.G. Wells, Mika Waltari (romancista finlandês) e tantos outros que me serviram de “mestres invisíveis”. Confesso que os romances nunca foram minha leitura predileta, talvez pela impaciência que sempre tive quanto a entender certos enredos.

    Apaixonado que sempre fui pela Língua Portuguesa, a qual jamais consegui escrever de maneira satisfatória, recorria sempre aos bons préstimos de Celso Cunha, Lindley Cintra, Aurélio Buarque de Holanda, Wilton Cardoso, Domingos Paschoal Cegalla, Paulo Rónai etc. Mas sempre admiti – e jamais vou esconder isso – que a minha grande influência estilística (se é que tenho uma…) foi mesmo do “padre” Chico Pereira (que assinava os seus escritos como F. Pereira Nóbrega). O que me atraía nos textos do padre (à época publicados no jornal O Norte) era a concisão. Com uma simples palavra o autor poderia encerrar uma sentença de sentido completo e perfeitamente inteligível. Saí de Guarabira em 1986 e continuei a ler o padre Chico Pereira. Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente, embora, quando repórter do extinto O Momento tenha tido agendado uma entrevista com ele quando ainda secretário de Educação da Prefeitura de João Pessoa. A entrevista, porém, não aconteceu em função de compromissos profissionais do então secretário.

    Pois bem, hoje, 26 anos após, descubro que me mantive o tempo todo na contramão do “realismo brasileiro”, pois ler e produzir cultura são atos introspectivos. E como tal, é ideal no tempo, mas marginal no espaço. Ora, as ideias transitam no mundo do abstrato, do intangível, do incomensurável e do imponderável. Porém quando materializadas elas se tornam concretas, tocáveis, messíveis e pesáveis. E mesmo sabendo ser possível materializar uma ideia (assim como o engenheiro, que faz emergir um edifício do meio do nada a partir de algo concebido a partir do papel), a questão se centra no meio físico em que essa mesma ideia será materializada. E se esse meio físico não contiver a “firmeza ideal” para suportar o peso daquilo que está sendo proposto? Não é difícil compreender que tudo o que foi projetado ruirá mesmo antes de ser posto em execução. Mesmo assim as ideias devem fluir naturalmente, pois é o nível da edificação que poderá suplantar a instabilidade do terreno. “Materializar e construir” requer ousadia, pois em alguns momentos é preciso semear grãos em terreno inculto e estéril.

    Um abraço e até a próxima.

    Nonato Nunes



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