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    03/09/2010

    Teorismo placebo

     Nos últimos dias tenho recebido e-mails os mais diversos. Um deles trouxe anexo um vídeo em que o ditador venezuelano Hugo Chávez tece elogios à candidata do PT por ter sequestrado um embaixador americano em finais da década de 70. Outros nem têm tanta importância assim. Mas o que me chamou a atenção foi o reenvio (digo isso porque já o li em outras ocasiões e até comentei o conteúdo quando escrevia para outro portal) acerca de um texto supostamente escrito por uma holandesa. Nele a missivista repreende aqueles brasileiros (os que têm o dom da autocrítica, claro) de apenas enfatizarem o “lado negativo” do país em detrimento de outras conquistas. Tudo bem. Digamos que a missivista batava esteja correta no repto que fez a todos nós.

    Ocorre que essa distinta senhora, pelo que está no e-mail, reside na Holanda. Logo se presume que esteja fora do alcance das balas do PCC, do Comando Vermelho e de outras facções criminosas que fazem suas próprias leis (que o diga o jornalista Tim Lopes). Claro, ela não se encontrava no hotel de Copacabana quando uma multidão de bandidos avançou atirando pra todo lado e fazendo reféns. A mesma cidadã não é a mãe que catava lixo para manter os estudos de um filho exemplar, o qual, num dia qualquer, foi morto de maneira perversa por um outro brasileiro que certamente tinha uma situação social e econômica idêntica à daquela pobre mãe e à daquele desvalido filho. A mesma holandesa não vive num país onde uma criança de dois anos fuma um cigarro de maconha sob as vistas de parentes que fazem “festa” para “celebrar” o ocorrido. Ela também não é a defensora pública Fátima Lopes, vítima da própria lei que tanto defendeu. Informo à referida missivista que o país que ela elogia em carta não é o mesmo que se mostra ao brasileiro pobre, desdentado e desmotivado.

    Não para por aí. A mesma holandesa anda por ruas onde existe a certeza de que chegará em casa sem nenhum arranhão (e mesmo viva). Seria bem interessante se a referida senhora viesse ao Brasil, desembarcasse em João Pessoa e fizesse uma enquete sobre segurança.  Ela ia ver que apenas um reduzidíssimo número de cidadãos da capital paraibana ainda não foi vítima de alguma ação da delinquência. Constataria ainda que quem ainda não foi vítima, ao menos conhece alguém que já esteve na mira de uma arma ou sob a ameaça de um instrumento perfurocortante. Certamente que o país dela ocupa um lugar de destaque quanto às liberdades individuais – algo extremamente louvável. Ela sabe, porém, que isso só é possível num país com elevado nível de educação, um alto padrão econômico, com o perfeito funcionamento das instituições de saúde, com leis que funcionam e o respeito à cidadania com a aplicação correta dos impostos e taxas cobrados da população. Certamente que nenhum desses casos citados se enquadra na situação brasileira.

    Embora o uso da foto acima possa ser interpretado de maneira equivocada, a intenção do autor, porém, foi apenas a de ilustrar os contrastes sociais e a utilização da miséria como alimento político. Louvo o fotógrafo Nyll Pereira pela captura de imagem tão singela, mas de tanto significado social.

    Que tal mandarmos uma cópia dessa imagem para a Holanda?  

    Pos-scriptum: informo que “placebo” é a medicação sem eficácia, assim como o discurso da tal holandesa e de “patriotas festivos”.

    OBSERVAÇÃO: No meu blog pessoal (protexto.zip.net) foz uso de uma foto feita pelo fotógrafo Nyll Pereira para ilustrar o texto acima. Quem quiser ver a imagem basta acessar o endereço informado.

    Nonato Nunes



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