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    31/12/2010

    Quando o malandro perde a “inocência”

     José Medina foi um dos mais influentes diretores da história do cinema brasileiro. Como poucos de sua época, Medina soube explorar com perfeição os fatos da vida cotidiana. E sua técnica refinada de transplantá-los para a tela interagia com o espectador pela exploração fragmentada de temas sociais. Medina era, assim, um arguto observador da conjuntura social do tempo em que viveu. No seu oitavo trabalho como diretor e roteirista ele lançou “Fragmentos da Vida”, um curta-metragem produzido em São Paulo em 1929. Na película, Medina, como um mestre da improvisação e da exploração de temas populares, buscou estabelecer vínculos temáticos com a assistência ao expor a esperteza de um malandro.

     Em Fragmentos…o personagem criado por Medina absorvia a simpatia do público pela ingenuidade das próprias trapaças que tentava aplicar. Era o típico “bom malandro” (se é que existe algum…). Assim o diretor transporia para as telas a simbologia de uma “chaga social” bastante comum em todas as fases das sociedades mundo afora. O filme de Medina se configura numa crítica social velada. Sem querer “dar um prego numa barra de sabão” o malandro de Fragmentos… busca viver às expensas do Estado. E o que ele faz para conseguir isso? Ora, tenta aplicar algum golpe para ser preso. A primeira vítima é um cidadão que, de pé numa esquina, segura firme o guarda-chuva com o qual pretendia se proteger da famosa garoa paulista. De repente o golpista se aproxima e alega que aquele objeto lhe pertencia. O pobre cidadão diz que o golpista poderia ficar com o guarda-chuva, pois o comprara sem saber a procedência. Bem, o golpe deu certo em parte, pois o malandro esperava mesmo era que o dono do guarda-chuva procurasse a polícia. O que não foi feito. A outra tentativa fracassada de “viver às expensas do Estado” fora um assédio feito, na rua, contra uma bela jovem. Novamente deu errado, pois a moça, ao invés de se aborrecer, acabou por agradecer a companhia. Segundo ela, se não fosse o malandro de Medina dois outros delinquentes a teriam assaltado. Pense num malandro azarado… Depois de várias tentativas, resolve desistir da prisão e procurar um emprego. Mas quando desiste, finalmente é preso.  Na prisão encontra no suicídio a saída para o arrependimento por não ter seguido os conselhos do pai: o de sempre trilhar o caminho do bem. 

     Longe no tempo, mas próxima no espaço, a sátira de Medina é de uma atualidade incontestável. Oitenta anos nos separam daquele malandro, e percebemos que de lá para cá muita coisa mudou. Para pior, claro… O que fora tratado por Medina como uma mera “sátira” é hoje interpretado como “um problema social grave”. O malandro de ontem foi transformado em narcotraficante ou no narcopolítico de hoje; em matador de aluguel; em agenciador de prostitutas; em explorador de menores; ou no pedófilo que infesta as sociedades como praga na lavoura.  

     Não faz muito tempo vi um desses delinquentes concretizar exatamente o que o personagem de Medina tentara há mais de oitenta anos: viver às expensas do Estado. Seu crime: assassinato. Um engenheiro fora morto à queima-roupa para que o bandido pudesse viver às custas do pobre contribuinte.

     Pergunto: Como Medina retrataria o malandro de hoje?

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    Nonato Nunes



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