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    25/08/2010

    Política e parentela na Paraíba

    Durante toda a República Velha (1889 – 1930) a Paraíba vivenciou um fenômeno social e político chamado “coronelismo”. Essa estrutura de poder se sustentava em três colunas basilares: no domínio político por meio da formação de grupos de base familiar, na formação de uma força paramilitar (os jagunços) e no comprometimento da Igreja como doutrinadora de almas e mantenedora do status quo. Baseado na propriedade rural, o coronelismo atuava nos mesmos moldes do feudalismo – com poucas variantes –, dadas as semelhanças pela forma como mantinha o homem atrelado à terra por dívidas, e se assegurando do poder local mediante ameaças e violências. E assim as parentelas se uniam em torno de objetivos comuns: dominar as ações políticas, preencher os cargos da localidade com apaniguados e manter a população das cidades sob suas rédeas. Nada devia mexer nessa estrutura onde o “barão feudal” fora substituído pelo “coronel republicano”.

    Ocorre que todas as conquistas da parentela, como já foi citado no primeiro parágrafo, passava pela formação de grupos bem organizados e fechados. Essa “caixa de pandora” guardava, além do coronel, o “cabra do coroné”, os aliados políticos, as propriedades rurais (origem do poder senhorial), a Igreja (fundamento de toda obediência) e tudo o mais que integrasse esse corolário de poder. De fora ficava o povo-massa,        que, conforme o pensamento dominante, era uma espécie de “monstro disforme e sem cérebro”. Pelo sistema ora em questão havia certas regras as quais não deviam ser jamais violadas. Uma delas se centrava no desestímulo às faculdades intelectuais dos filhos dos camponeses. Nada de escola. Nada de estímulos às “virtudes conscienciosas”, um direito reservado às proles dos que tinham “berço”. Outra característica desse sistema que imperou na Paraíba até 1930 estava no “valor da dependência”. Cada família, sob a tutela senhorial, estava na obrigação de viver com o mínimo necessário. Tal privação fazia parte da política de prevenção contra “surtos independentistas”.

    A Paraíba parece mesmo ser um caso emblemático de “atrofia crônica”. Jamais, em nenhuma fase da história do Brasil, o Estado e os seus dirigentes conseguiram se desatrelar da metodologia feudocoronelista de finais do século 19. O advento da República em nada mudou o modus vivendi do pobre camponês ou do citadino que estava sob o constante temor dos confrontos entre facções rivais (jagunços ou cangaceiros). Economicamente manteve-se atrasado, sem jamais se desatrelar do papel de “extensão da capitania de Itamaracá”.

    Para quem ainda não conhece indico para leitura o livro “Política e Parentela na Paraíba – Um estudo de caso da oligarquia de base familiar” (Editora Record, 1987). A edição de que disponha é de 1987. Lançado aqui pela Record, mas com o copyright pertencente à Princeton University Press, o livro da “paraibanista” Linda Lewin, assistente de História na Universidade da Califórnia, em Berkeley, se configura numa espécie de radiografia sócio-política da Paraíba durante a República Velha.

    Está mais atual do que nunca. Vale a pena ler a obra.

    Nonato Nunes



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