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    28/09/2010

    Nordeste (an)alfabetizado

    Tenho sido criticado por pessoas próximas pela forma “crua” como exponho o meu pensamento. Dizem que chego a ser “pessimista” quando analiso certas questões e até mesmo “injusto” nas minhas avaliações. Mas vejamos se dá pra pensar de outra maneira quando escuto um relato como o que vem a seguir. Para tentar reduzir o número de analfabetos no Brasil, o governo Lula da Silva inventou o tal “Brasil Alfabetizado”, que tem por meta reduzir o número de analfabetos entre jovens, adultos e idosos. Pois bem. Ocorre que, ao menos na Paraíba, identifica-se a falta de bom senso na condutividade do programa (aliás, nada de estranho nisso). Senão vejamos. Por aqui o professor credenciado no programa está “obrigado” a manter uma turma de quinze (15) alunos dentre os das faixas etárias acima descritas. Se for constatado um número de frequência menor que o de matriculados, o professor será imediatamente descredenciado e perde o… “bolsa-analfabetismo?”.

    É aí que o programa perde a eficácia. Alguns professores me relataram que existe uma grande dificuldade de convencer adultos e idosos da importância de serem alfabetizados. As desculpas são as mais estapafúrdias. Alguns alegam que a idade já não suporta mais essa “sobrecarga” (esse é um “zumbi iletrado”). Outros preferem se deleitar com as fofocas da TV e curtir os “bacanais noveleiros” com todo o seu “lixo cultural”. Há ainda os que “tiram sarro” da cara desses sofridos heróis anônimos. Um dos relatos a mim contados por uma professora do tal programa está no nível da “autofagia cultural”. Uma idosa, que a muito custo aceitou o programa, ria da professora. Instada a responder acerca do porquê do “sorriso amarelo” ela (a idosa) teria respondido o seguinte: “Ah, não preciso aprender a ler nem a escrever. Sou muito feliz como analfabeta.”  Caro leitornauta, deixe que “Os mortos enterrem os seus”.

    A meu ver o tal Brasil Alfabetizado peca por pregar o “quantitativo” em detrimento do “qualitativo”. Ora, se um só dos matriculados deixar o programa lendo, escrevendo e contando, por si só já será um avanço. Essa conquista tão singela servirá de parâmetro para que outros, menos afeitos a esse “sacrifício”, possam se sentir encorajados a seguir o mesmo exemplo. O que não é interessante é a destruição de um núcleo de aprendizagem (o programa estimulo o ensino em residências) levando-se em conta o quantitativo. Os responsáveis pelo programa na Paraíba parecem se comportar como os chamados “médicos da morte”: não achando a cura, matam o paciente. Ou mesmo como “Justo Veríssimo”, aquele famoso personagem de Chico Anysio. Veríssimo pregava que para acabar com a miséria bastava destruir o miserável. É preciso reavaliar esses programas e “doutrinar” esses “gênios da educação” para que usem o bom senso (algo tão singelo e humanamente possível) na hora de medirem suas decisões.

    Para encerrar, trago aqui alguns números que mostram o quanto o Nordeste é “potencialmente analfabeto”. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) o Nordeste mantinha, em 2004, uma taxa de 22,4% de analfabetos. Cinco anos depois essa mesma taxa caiu para 18,7%. O próprio Instituto classificou a queda como “leve”. Já o país registrou em 2003 nada menos de 16 milhões de analfabetos. Cinco anos depois essa taxa foi reduzida em dois (2) milhões. Ou seja, pouco se avançou.

    Mesmo assim ainda se criam dificuldades para a execução de programas como o tal Brasil Alfabetizado. Assim sendo, caro leitornauta, não há como deixar de ser um “pessimista injusto”.

    Nonato Nunes



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