API – Associação Paraibana de Imprensa


  • (0) Comentário

    30/04/2011

    Antes que o sonho acabe…

    A cena me atraiu a atenção pela singeleza com que transcorreu. Ali, de pé e com o ombrinho direito escorado na parede, estava “Manu”. Ela observava o movimento das crianças deixando a escola. Quieta e com o olhar distante a menina nem parecia estar prestando atenção na algazarra. Estava absorta. Parecia perdida em pensamentos os quais só ela saberia descrever. O olhar tristonho refletia uma dor inocente, precoce e aparentemente sem explicação. Mas Manu se mostrava sincera até quando procurava esconder seus sentimentos. Havia, sim, uma preocupação naquela melancolia inexplicável.

     Aos seis anos de idade Manu é admirada pela sua presteza, algo que lhe é intrínseco. Quando chega de algum passeio tem logo o cuidado de guardar seus sapatinhos – o único par de que dispõe. O mesmo faz com os chinelos quando precisa pôr os sapatos para ir a algum lugar. Tudo isso é feito de maneira consciente. Seus pais não precisam fazer qualquer recomendação. Manu tem um incomum senso de responsabilidade para a idade dela. O avô tornou-se um profundo admirador da menina. Os tios e tias também. Um hábito dela é o de ir para a pia e ajudar o avô, um viúvo prestes a completar 89 anos; gesto feito de maneira espontânea. Por onde passa Manu cativa a todos. Seu comportamento com as outras crianças da idade dela é também exemplar. Assim como cuida com denodo de seus poucos bens pessoais, ela faz o mesmo com os brinquedinhos com os quais se diverte. Como toda criança pobre, Manu tem sonhos. Não esconde – embora saiba conter seus desejos – a vontade de ter acesso a coisas simples ostentadas por outras crianças da idade dela. Mas sabe que são conquistas que só advirão com o tempo.

     Mas o que afligia Manu? Tomei a liberdade de invadir a inocente privacidade dela. Perguntei-lhe se estava estudando… Ela, demonstrando recato e timidez, respondeu que não. Fiz-lhe então uma outra pergunta: Por quê? Ela me respondeu que não tinha os caderninhos. Os pais ainda não haviam reunido as condições financeiras para comprá-los. Embora dediquem amor e atenção a ela e ao irmãozinho dela, os pais da menina não haviam conseguido, até ali, reunir o dinheiro necessário para comprar os cadernos da filha.

     Eu confesso que aquela resposta me desmontou como se uma tonelada de concreto tivesse sido atirada sobre a minha cabeça. Imaginei quantas crianças como Manu estão na mesma situação Brasil afora… Imaginei o quanto somos hipócritas e perversos… Era ela mais uma pequenina vítima de um mundo repleto de ambições, no qual a desonestidade é uma regra de vida e o meio mais fácil para se alcançar riquezas e altos postos. Será que quando estava absorta em seus pensamentos era nisso que ela pensava? Sim, era.

     É que as dores da alma não escolhem suas vítimas.

    Nonato Nunes



API - Associação Paraibana de Impresa 2009-2011 | Todos os direitos reservados. | Login