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15/03/2010
Ressuscitado por Rubens Nóbrega, em sua coluna diária no Correio da Paraíba, Sid Serra puxou o cordão da memória, tempos desses, e me fez remexer no baú dos pseudônimos locais, garimpando alguns que tiveram passagens marcantes pelas páginas dos nossos matutinos. Vai e vem, voltam com a carga misteriosa que lhes deu notoriedade. Fugazes ou duradouros, compõem o cenário folclórico e sociológico de uma cidade envolta em ramificações delicadas, suscetíveis a circunstanciais anonimatos. Por medo, oportunismo ou farra – ou outras motivações, sabe-se lá?
Com o advento da internet aí foi que a coisa ampliou-se. Institucionalizou-se, aliás. Encobertos por e-mails indecifráveis, internautas de todos os matizes e temas enchem portais de notícias e caixas de correios com sandices e lendas para todos os gostos e desgostos. Pela proliferação, não causam mais tanta indignação quanto a uns 15, 20 anos, antes da instantaneidade virtual. Nem de longe atrairiam a fúria provocada pelas opiniões apócrifas de uma tal de Beth Paiva, personagem misteriosa que, de certa forma, usaria meu corpo para disseminar seu espírito de porco e azucrinar a pacata vida da província, lá pelos idos de 1991. Um espinho atravessado em minha garganta, desde então.
Chefiava a Redação do Correio, no período em que Rubão promoveu a virada editorial do jornal fundado por Teotônio Neto. O restabelecimento do papel essencialmente jornalístico, de informar e instigar a sociedade, com o combustível gerado por ela própria, vinha motivando uma equipe afinada e cheia de tesão. Uma época em que ainda existiam furos. Sebastião Lucena, colunista do jornal, foi o emissário. Com um faro incomum para notícia, me repassa uma imitação de livro, xerocado, com menos de 100 páginas, que lhe havia chegado às mãos através de Abelardinho Jurema que, por sua vez, recebera de um amigo residente no Rio de Janeiro. O título neutro não traduzia a bomba de efeitos morais contida entre suas páginas mal alinhavadas: “JOÃO PESSOA PARA OS NÃO INICIADOS”. No burburinho de final de tarde, Tião entrega o calhamaço e recomenda: “Dá uma olhada no que essa rapariga escreveu”. Intrigado, mas emaranhado nas horas findas, reservo o material para algum momento manso.
Esse instante chegaria uns três meses depois, em 1o de dezembro. Precisando fechar o “Caderno 3” – uma espécie de revista de variedades que circulava aos domingos, com o apoio luxuoso de Deodato Filho, ainda pré-Mike Deodato (e, posteriormente, Cristovam Tadeu) –, com umas pautas furadas, recorri ao material pendente, atrás de algo que pudesse gerar um texto para a página vazia. Nada do que guardara se aplicava à necessidade. O danado do livro era a derradeira opção. O tal da “rapariga”.
Li-o é maneira de dizer. Devorei-o em coisa de meia hora. Um assombro o que a “autora” despejara naquelas páginas datilografadas, fotocopiadas e arrumadas sem qualquer critério editorial ou gráfico em forma de “livro”, fazendo circular em rodas seletas do Rio de Janeiro, a partir de 1987, quando “lança” uma espécie de diário resumido dos 14 meses de residência na capital paraibana, acompanhando o marido e quatro filhos. Um amontoado de sandices e preconceitos. Um soco no estômago de cada um daqui. No bucho, aliás. Tião e Abelardo acertaram de novo. Ali havia matéria-prima para dar no que deu: “Livro semi-apócrifo achincalha João Pessoa para todos os cariocas”. O título, em três linhas, era encimado por uma frase pinçada da “obra” de Beth Paiva: “A Paraíba é uma unha encravada no pé do Brasil”.
Para não cansar os leitores de hoje, lanço apenas uma frase da misteriosa “escritora”, para que se tenha uma noção do conteúdo de suas impressões “acadêmicas”: “Conhecer a Paraíba, não como turista, mas como um dos seus cidadãos, é desanimar de ser brasileiro. É perder todas as esperanças de que este país, algum dia, vá tomar jeito e virar sério”. Pronto. Sem querer, querendo, mexera num vespeiro. Dera vida e fala a uma sombra covarde e intolerante. Mesmo não sendo culpado pelas aberrações da anônima dondoca, senti-me assim a partir daí. Pelas reações que se seguiram.
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No dia 4, Sebastião Lucena despeja toda sua indignação com a mulher, no artigo “Uma tal de Beth Paiva”. Virulento, Tião não contemporiza: “Ela gosta do Rio porque lá é a terra de Escadinha, o pó da coca dá no meio da canela, a prostituição começa na Zona Norte e deságua na Zona Sul, a comunidade gay é a maior da nação e a maioria dos homens anda com as cabeças enfeitadas por bonitos e luzidios chifres, colocados por suas queridíssimas e insaciáveis consortes”. Danou-se. O irrequieto articulista conclui seu artigo com uma suspeita: “(…) o diabo é quem garante que esta veneranda não estaria contaminada com o vírus da Aids”. A coisa começara a feder.
Do extinto “O Momento”, viria, no mesmo dia 4, a análise delirante de Kubitschek Pinheiro, no artigo “Beth, a mais arretada”. Kubi segue o caminho do escracho para também desqualificar essa “carioquíssima idiota”, autora de uma obra “otária”: “Calma, Beth, calma. O sentimento de horror, tristeza e desespero marca sua grande cagada. A senhora é cega para não ter sacado a beleza, a seriedade e os aspectos bonitos da nossa vida? A senhora não ganhou nenhum DAS? Viva, dona Beth, assim mesmo, mas pague suas contas. E não esqueça: pisou aqui, vai logo sabendo que a unha cravada continua viva. Cuidado para não pisar em broxa”. E por aí ia. Mister “K” também deixa uma perguntinha no ar, ao final: “Será que dona Beth não é o pseudônimo de alguém da terrinha?” Seria?
Se não para algo mais produtivo, Beth Paiva serviu, pelo menos, para aguçar outros dedos anônimos, mas não menos argutos que os expostos. Surge, então, outro personagem que nos acompanharia por um bom tempo, fazendo comentários variados, sobre tudo e todos da província. Nasce John Doe, ser misterioso que incluo no rol dos meus casos pessoais insolúveis. Ele manda bala, também no dia 4, no espaço do leitor do Correio da Paraíba. Os projéteis apontam pra todos os lados: “(…) Mas, infelizmente, temos que admitir que a obscura senhora Beth Paiva tem razão em alguns pontos. (…) A chamada ´Classe A´ [por exemplo]. São arrogantes que passam fome para ostentar riqueza. Já ouvi muita empregada doméstica se queixar de não ter o que comer na casa dos patrões, mas na garagem há carros do ano”. Cru, tempera nas comparações: “Admitamos: nosso sotaque é horrível. Basta ver na TV (a gente não sente quando fala). Mas, convenhamos, o do carioca também é. Eles falam numa chiadeira de dar nojo. Parecem ter a boca cheia de baratas. Mas isso é questão de origem e não há como discutir quem está certo ou errado na questão”. Está certo.
Verônica Correia Lima, no mesmo Correio, mas já no outro dia, 5, acrescenta novas gotas de veneno ao caldeirão fervente: “(…) Uma ´senhora´ de mente medíocre, preconceituosa e imbecil. Além, evidentemente, de covarde. Pior que cobra cascavel. (…) Pretenciosa, no mínimo. Pelo fato de ser carioca, queria as atenções gerais. Sentar no trono da mediocridade e ser reverenciada. Não conseguindo isso, esperou sair da cidade para atacar os habitantes de João Pessoa. Digna de piedade, pois vive num mundo caótico, chapiscado de lama dos conceitos mal formados”. Verônica, compadecida, fecha seu artigo com um veredito quase cristão: “Pobre senhora!”.
Criador indireto de um monstro, vou sumindo na minha angústia na medida em que os comentários vão se multiplicando. De todas as frentes. De O Norte, Anco Márcio, no dia 6 de dezembro, bota sua colher nesse angu de caroço, embolando o caldo e salpicando baba ofídica pelos olhos dos leitores do seu “Romance da Cidade”. O único a concordar com tudo o que a forasteira escrevera: “Queria conhecer essa tal de Beth Paiva – se é que ela existe – para lhe dar um aperto de mão. E dizer que faltou uma coisa em seus bem ou mal escritos: que o pessoense deseja ser intocável. Tudo o que a mulher disse é verdade e agora todo mundo quer tirar o loló da seringa. Ou por acaso é mentira que todo mundo aqui dá uma de rico?”. Irônico como poucos, Anco recomenda: “Botemos a carapuça”. Para concluir, sentencia: “Deixem de frescura e assumam a mediocridade”. Tava dado o nó. Cego.
No domingo posterior à circulação da matéria original, Carmélio Reynaldo, na função de ombudsman, tenta mediar o debate, após ler todo o pretenso livro, alertando para os mesmos erros cometidos pela desconhecida socialite: a xenofobia. “(…) Muitas manias do pessoense que Beth Paiva colocou no livro são as mesmas que, de vez em quando, nós encontramos nas páginas dos jornais. Infelizmente, os colegas não compreenderam isso e, a não ser Anco Márcio, todos reagiram dentro do figurino bairrista”. Didático por ofício, o professor Reynaldo, resumiria a postura da “escritora”: “Apesar de se revelar uma pessoa que escreve razoavelmente, demonstrando uma boa formação, Beth Paiva é incapaz de refletir sobre as óbvias diferenças que existem entre paraibanos e cariocas e, por isso, julga nosso jeito de ser através de sua ótica”. E ponto.
Parágrafo. João Costa, na mesma edição, joga mais lenha na fogueira da inquisição contemporânea, promovida pela esnobe escriba: “A minha reação imediata foi xenófoba, mas é bem verdade a baixaria, acertando no grosso e errando no varejo. Não só os ricos e novos ricos da Paraíba são boçais e perdulários. Os cariocas também”. Admirador da música nordestina, João discorda do moralismo da mulher, ao achar erotizante a dança do forró, formalizando um irreverente convite à distinta: “A senhora precisa voltar, dona Beth. Especialmente para conhecer o Terceiro Mundo, em Bayeux, e algumas casas noturnas em Mangabeira. Aí, sim, a senhora vai ver o que é bom pra tosse”. Cof, cof!
Aproveitando os aspectos “estratégicos”, abordados nas entrelinhas do diário de Beth, Humberto Halison Carvalho, n´A União do mesmo dia 8, descobre intenções separatistas no texto da indesejável visitante: “(…) Porém, se para os separatistas, o Sul e o Brasil melhorariam com o desmembramento de alguns Estados, não se recomenda o retrocesso à Revolução Farroupilha nem ao triste exemplo da Iugoslávia, para o atingimento (sic) de seus propósitos. Bastaria apenas, dra. Beth e demais separatistas, a adoção da eterna e sempre atual lição do nosso Bráulio Tavares: ´Já que existe no Sul esse conceito / Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato / Já que existe separação de fato / É preciso torná-la de direito”. De fato.
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A polêmica prosseguiria e o mistério também. Quem seria Beth Paiva? Quem se esconderia atrás desse e de outros pseudônimos da província, como o próprio Sid Serra (que Rubens revelaria em sua coluna, treze anos depois), John Doe, Suzana Goretti d´Almeida, entre outros tantos? Até hoje não sei. Fiquei meio obcecado por uns tempos, querendo descobrir a identidade da ranzinza hóspede – menos por ímpeto jornalístico e mais na tentativa de me redimir do pecado de pari-la. Depois esqueci. Pelo enfoque petulante e desprovido de base técnica, o “livro” de Beth Paiva foi parar no “arquivo morto”, ressuscitado apenas para efeito ilustrativo desse flash de tempo. Não merece ser lido por ninguém. Não precisamos disso.
Mas, como editor, se resolvesse publicar as sandices de dona Beth Paiva, precisaria de autorização da própria, para evitar que um dia surgisse cobrando direitos, corroborando com algumas impressões suas. Mas como encontrá-la? Começar por onde? Nesse caso, quem mais se aproximou de um perfil da dita cuja foi Carlos Aranha, em 14 de dezembro do mesmo ano, na sua antológica coluna Essas Coisas, ao abordar sobre a avalanche de pseudônimos que invadira as páginas dos jornais há anos. Garantindo que Suzana Goretti d´Almeida existia, era sua amiga, formada em jornalismo e que, à época de A União na João Amorim, Agnaldo Almeida “tinha largas conversas com a própria à sombra de um jambeiro”, Aranha revela a presença de uma amiga da também misteriosa redatora, a baterista e estudante de ciências ocultas, Marcela Silvana da Conceição. Essa, por sua vez, teria conversado com d´Almeida, na Última Sessão, e repassado pistas da origem de Beth Paiva: “(…) Suzana acha que ela tem profundas ligações com Gilberto Vasconcelos, o glauberiano professor que corporativistas da UFPB não engoliram por aqui, porque, entre outros ´defeitos´, dava aulas de chinelos e terno branco, fumando cigarros-de-milho, e mantendo correspondência e telefonemas com João Gilberto e Jards Macalé”. Lúdico e visionário, o autor de “Sociedade dos Poetas Putos” ainda vaticinaria em seu artigo: “Se a coisa de Beth Paiva envolve a história que José Nêumanne me contou de São Paulo vs. Paraíba, complicações virão”. Não tenho a menor idéia se essas “complicações” surgiram ao longo dos anos ou se dona Beth Paiva é o resultado de alguma conspiração nacional. Pode ser, pode não ser.
Mas, por curiosidade técnica ou humana, se alguém desejar descobrir o paradeiro de Beth Paiva, recomendaria começar pelas luzes acendidas por Aranha/d´Almeida. De minha parte, garanto, ela está apagada, morta e sepultada. Na beira do caminho, entre a Cidade das Acácias e a Cidade Maravilhosa. No limbo da minha memória.
ENTRELINHAS
Casa de ferreiro… Infelizmente, creio que ninguém saiba mensurar, com embasamento documental, quantos livros existam para consulta e pesquisa, abordando a história da imprensa paraibana. As etapas, os personagens, as caixas de ressonância, as influências e tudo o mais que esteja relacionado aos meios de comunicação da terrinha estão espalhadas por empoeiradas bibliotecas, sebos e gavetas…
A cada edição, pois, abordaremos resumidamente algum desses livros, na tentativa de compor uma bibliografia mínima aos que desejam conhecer ou estudar a temática.
Sugestões e indicações dos leitores serão fundamentais nessa construção. Textos inéditos também. Vamos sacudir a poeira, coleguinhas e colegões!
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“História da API”, de Fátima Araújo (Coleção Quarto Centenário/Governo do Estado/Grafset), de 1985, é o único trabalho publicado sobre a entidade quase octogenária. Lançado sob os auspícios da Comissão do Quarto Centenário, a obra, de 78 páginas, cobre – com justificadas lacunas – o período de sua fundação até a diretoria eleita em 1983, tendo Carlos Aranha na presidência. Leitura obrigatória para quem deseja ter um conhecimento básico sobra a Associação Paraibana de Imprensa.
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Reclame:
“Faz-se discursos. Contra ou a favor”. (Benedito Maia)
Calhau:
Quem com ferro fere, pode ser preso por agressão.
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“(…) Quanto sonho há
no rio
de ser mais
que rio
de ser mais
que mar
quando Sanhauá?
Lúcio Lins (Varadouro – Soneto em Preto e Branco, Edições Varadouro, 2002)
fernandomoura@gmail.com
Fernando Moura


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